Os Desafios da amamentação Parte 3

Agora começaria outro desafio…. Como amamentar? Na maternidade, ia alternando a mama com a sonda ou o biberão (sugeri o copinho também, para o bebé não ficar dependente do biberão e rejeitar a mama, algo que por sorte não aconteceu. Não houve “nipple confusion”). Mas ele não fazia uma mamada completa na mama. E portanto, não sabia como fazer agora em casa. Nessa primeira noite, munidos do leite que tinha sobrado do dia (descongelado), demos biberão ao nosso filho. E na manhã seguinte, tinha o apoio de uma enfermeira do centro pré e pós parto, que me pesou o bebé e me ajudou na tarefa de passar a amamentar em exclusivo. Chegámos a comprar uma lata de leite artificial. Oferecemo-la a uma casal amigo, ainda por abrir. Esta consulta com a enfermeira Filipa foi crucial. Eu parecia que tinha sido atropelada por um camião, que tinha feito marcha atrás e voltado a atropelar, só para garantir que o trabalho tinha ficado bem feito. O Mr. B, igual. E a enfermeira Filipa mostrou-me uma sonda, um kit de traslactação da Medela, ensinou-me a usar o copinho. Colocou o Baby S na minha mama e ele mamou. Mamou até cair para o lado e adormecer, ao que aprendemos a expressão “milk drunk”. Num momento caricato, um gesto que ainda hoje usamos, a enfermeira Filipa levantou o braço do Baby S e largou-o, fazendo lembrar a brincadeira da “mão morta, mão morta, vai bater àquela…”. O nosso bebé tinha mamado. O objectivo agora era implementar a amamentação em exclusivo (um passo de cada vez). Por sorte, não tive de me debater com o desafio de retirar suplemento, pois produzia leite suficiente para suplementar com LM, caso ele não mamasse. Também, pudera! A estimular daquela forma…

Nesse dia, oferecemos uma vez o LM num copinho e surgiu um milagre. Ele passou a mamar, sempre e apenas na mama. Foi, sem dúvida, o apoio e conhecimento e, acima de tudo, a confiança que a enfermeira Filipa me transmitiu. E o apoio do Mr. B. Esta etapa estava superada. Final da estória? Não, acham? Agora surgia todo um outro leque de desafios.

Como mãe de primeira viagem, estava angustiada com a questão “de quanto em quanto tempo terá ele fome”? Vinha com a rotina de 3 em 3 horas lá da maternidade, rotina que muito rapidamente perdeu. Eu não queria deixar passar muito tempo e então o geek do Mr B instalou uma app para controlar a situação. Aliás, chegámos a comprar um tablet para eu a instalar, pois o sistema operativo do meu telefone não o permitia. Naqueles primeiros tempos, registava tudo. Parecia mais preocupada em registar do que propriamente no que estava a fazer. Isto durou… um mês? Amamentei em Livre Demanda, ou seja, o bebé mama cada vez que tem fome, sem regras e restrições horárias. Mama o que quer, quando quer. Pois convenhamos… os nossos bebés não leram nenhum manual que dita que devem mamar de x em x horas. Eles mamam quando têm fome. É simples! É uma necessidade que deve ser satisfeita no imediato, pois ele não percebe porque “deve” esperar. Portanto, lá foi a app à vida, pois ele sempre mamou quando quis e ela deixou de fazer sentido. Foi importante para me estruturar inicialmente, para ter uma ideia do padrão do meu filho, mas à medida que ia conhecendo aquele maravilhoso ser, libertei-me.

Ora então, mais uma mastite, desta vez ma mama esquerda (são tão democráticas, as minhas mamas. Uma em cada). Foi mesmo mastite, parecia que tinha gripe ou levado uma tareia. Ou as duas. Mais uma ronda de antibióticos. Umas 3 semanas depois de introduzir a amamentação em exclusivo, umas dores lacerantes no mamilo esquerdo. De tal forma que me recordo de estar a dar de mamar sentada no sofá a chorar com dores e aos berros. Foi de tal forma que o Mr. B comentou “se é para ser assim, acaba-se já com a amamentação. Não te quero ver sofrer”. Optei por extrair da mama esquerda e oferecer só a mama direita. Há um outro momento caricato – eu a dar de mamar na mama direita e o Mr. B a segurar a bomba na mama esquerda, para eu ir retirando à medida que dava de mamar, caso fosse preciso oferecer com copinho na próxima mamada. Por sorte, não havia mãos para tirar uma selfie. Teria ficado engraçada, não acham? O que os pais fazem…

A razão pela qual o mamilo estava neste estado? Não era gretado, desse mal não cheguei a sofrer e não sei bem como. Estava sim, macerado. O Baby S tinha o freio curto e não colocava a língua a cobrir as gengivas para mamar. Ou seja, cada vez que dava de mamar, era como se ele estivesse o tempo todo a mastigar-me o mamilo com as gengivas. O auxílio veio na figura da Dra. Mónica Pina, que viu o freio e o cortou e deu umas excelentes dicas para facilitar a amamentação. Uma delas foi usar bepanthene pomada em vez de Purelan. Ao que parece, há uma percentagem pequena de mulheres a quem o Purelan não ajuda. Eu faço parte dessa percentagem J

Passado uma semana, comecei a sentir o início de dores no mamilo direito, mas foi apenas um falso alarme. Mais desafios? Claro! Um bebé que bolçava litradas e que tinha de ficar direito a seguir à mamada… levá-lo a qualquer sítio implicava muitos babetes, mudas de roupas e o babywearing, que ajudava muito já depois do bebé estar dentro do pano, era também um desafio no momento de o colocar e “apertar”. Muitos panos lavei eu. Fui mais vezes às consultas de enfermagem. Fui mais vezes ao grupo de apoio à amamentação, um espaço onde podemos partilhar as nossas experiências, aprender umas com as outras e apoiarmo-nos. Lá está, a questão do apoio. Senti-me apoiada, acarinhada, tranquila. Entre a equipa maravilhosa do centro pré e pós parto e o Mr. B, não teria conseguido ultrapassar esta fase inicial. Claro que, veio o pico de crescimento do 1º mês. Não foi muito mau. Já o do 3º… era frequente ouvir “se calhar o teu leite não chega. Tens de dar biberão” ou “se calhar o teu leite não é bom”. Houve uma pessoa que levou a resposta “é tão bom que ele quer passar o dia inteiro a mamar”. Foi desafiante, ele mamava de hora a hora, chegou a estar duas horas na mama à noite… mas lá está, com o conhecimento que me foi transmitido no centro pré e pós parto, sabia que era uma questão de “aguentar”, que daí a dois dias o meu corpo adaptar-se-ia ao que o bebé solicitava. E assim foi. Quase uma nova subida de leite! Foi desafiante, foi. Durou ainda umas semanas. Mas a cada vez que eu tinha dúvidas (também as tive, acreditem), o Mr. B colocava-me duas perguntas, que eu sugiro se coloquem também: “Está a mamar?” “Está.” “Está a aumentar de peso?” “Está.” “Então, tens leite.” Portanto, às mamãs que estejam a passar por esta fase, aguentem firmes. O vosso corpo tem a capacidade de produzir o leite que o vosso bebé solicita Confiem. Não ouçam quem vos diz que o vosso leite “não é bom”. Esse conceito não existe. Confiem em vocês e no vosso bebé e procurem aconselhamento nas enfermeiras do centro pré e pós parto. Frequentem o grupo de apoio à amamentação. Têm aqui uma equipa pronta para vos ajudar com tudo o que precisem, aproveitem bem.

Já regressei ao trabalho, tinha o Baby S tem 7 meses e tal e já comia duas refeições. Ora, os desafios serão outros, certamente. Quais serão? Têm experiências? Partilhem! Queremos ouvir as vossas estórias, são o que nos alimenta. Ouvimos tantas vezes os casos mais bicudos, é importante partilhar também os casos de sucesso. E são muitos!